A expectativa de início de queda da taxa básica de juros (Selic) em 2026 pode impulsionar a construção civil e o mercado imobiliário no Brasil, segundo especialistas e executivos do setor ouvidos pelo Valor. A possível redução da taxa pelo Banco Central (BC) tende a baratear o crédito e ampliar a demanda por financiamento imobiliário, com impacto direto em lançamentos e vendas.
Economistas consultados pela reportagem do jornal projetam que o Produto Interno Bruto (PIB) da construção pode crescer mais de 1% em 2026, acima da alta de 0,5% registrada em 2025.
Em janeiro, o BC manteve a Selic em 15% ao ano, maior nível desde 2006. Já as projeções do boletim Focus de 9 de março indicam taxa de 12,13% no fim de 2026. O ritmo de queda dos juros pode ser menor que o esperado no início do ano por causa dos riscos inflacionários associados à guerra no Oriente Médio.
Crédito imobiliário e demanda por moradia
Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), Cláudio Hermolin, a taxa de juros tem efeito direto sobre o acesso das famílias ao financiamento imobiliário.
“Temos cálculo que mostra que, a cada meio ponto percentual que aumenta na taxa de juros do crédito imobiliário, você tira do mercado cerca de 500 mil famílias”, disse.
Ele explicou que juros elevados aumentam o valor das parcelas e podem excluir compradores do limite de comprometimento de renda, que normalmente é de até 30%.
Lançamentos e PIB da construção
O presidente-executivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Fernando Guedes Ferreira Filho, afirma que a taxa atual ainda é restritiva para a economia.
Mesmo com juros elevados, o setor manteve desempenho positivo. Em 2024, o PIB da construção cresceu 4,4% e, em 2025, avançou 0,5%. “Tivemos [em 2025] recordes de lançamentos e vendas no setor imobiliário. Isso tudo por causa da demanda, que ainda é muito grande”, afirmou.
Minha Casa Minha Vida e déficit habitacional
Executivos também citam o impacto de políticas públicas. O governo federal anunciou a contratação de 1 milhão de novas unidades habitacionais no programa Minha Casa Minha Vida, com meta de alcançar 3 milhões no triênio até 2026, e ampliação das faixas de renda atendidas.
Leonardo Mesquita, presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ), destaca ainda o déficit habitacional como fator estrutural de demanda. Dados do Ministério das Cidades indicavam déficit absoluto de 5,97 milhões de moradias até 2023.
Custos da construção e riscos inflacionários
Apesar do cenário positivo, especialistas apontam desafios para o setor. A coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), Ana Castelo, cita escassez de mão de obra qualificada e pressões inflacionárias.
Segundo Matheus Ferreira, economista da Tendências Consultoria, a guerra no Oriente Médio pode elevar custos de insumos ligados à energia. Ainda assim, a consultoria projeta crescimento de 2,1% do PIB da construção em 2026, acima da estimativa de 1,6% para a economia brasileira.