Poucas cidades no Brasil possuem uma relação tão contraditória com o próprio passado quanto o Rio. Ao mesmo tempo em que derrubou parte importante da sua memória urbana ao longo do século XX, a cidade ainda guarda espalhados entre seus bairro mais antigos, em especial no eixo Tijuca-Centro-Zona Sul, alguns dos conjuntos arquitetônicos mais raros do país, muitos praticamente invisíveis ou escondidos. Nos últimos anos, incorporadoras passaram a enxergar justamente nesses imóveis antigos um novo filão imobiliário. Em vez da demolição completa, cresce a aposta em projetos de retrofit, que reaproveitam construções históricas, muitas vezes tombadas, e adaptam esses espaços à vida contemporânea sem apagar totalmente sua identidade original. É um movimento que começou de maneira mais forte no Centro, avançou pela Zona Sul e agora também alcança bairros tradicionais da Zona Norte, onde casarões, galpões, conventos e antigas edificações religiosas passaram a ganhar novos usos sem perder completamente a alma original.
Foi dentro dessa nova lógica que um vídeo publicado nas redes sociais acabou despertando a curiosidade de milhares de cariocas nos últimos dias. Ao mostrar o condomínio onde mora, um morador da Tijuca revelou uma área comum bem diferente do habitual, que mais parecia cenário de filme europeu, com corredores monásticos, arcadas centenárias, jardins internos, ruínas preservadas, paredes de pedra e uma igreja histórica funcionando normalmente dentro do próprio condomínio. Trata-se de um condomínio residencial da Rua Bom Pastor, na parte alta do bairro, onde o antigo Convento Bom Pastor acabou sendo incorporado ao Atrium Residences, empreendimento que transformou uma construção religiosa do século XIX num dos retrofits mais charmosos do Rio.
O conjunto arquitetônico começou a ser erguido em 1895 pela ordem francesa das Freiras Bom Pasteur D’Angers. Além da vida religiosa, o convento acolhia mulheres em situação de vulnerabilidade, jovens consideradas “rebeldes” para os padrões da época e meninas enviadas pelas famílias para educação religiosa. A igreja ao lado seria concluída anos depois, já em 1910, consolidando o complexo que funcionaria até o fim dos anos 1980. Depois disso, o imóvel entrou num longo processo de abandono. O convento permaneceu fechado por cerca de duas décadas, até entrar no radar do mercado imobiliário no fim dos anos 2000.
Naquele momento, porém, o destino do prédio era outro. O projeto inicial previa a demolição completa do convento. Como acontece com edificações antigas, o imóvel precisou passar pela análise dos órgãos municipais responsáveis pelo patrimônio histórico antes que qualquer intervenção fosse autorizada. Foi ali que a história tomou outro rumo.
“Saímos de lá sem palavras”
O arquiteto Luiz Augusto Alves, atualmente professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e ex-servidor da antiga Secretaria Municipal de Patrimônio Cultural, hoje incorporada ao IRPH, foi um dos responsáveis pela análise técnica que mudaria o destino do convento. Em conversa com o DIÁRIO DO RIO, ele contou detalhes de uma vistoria realizada em 2008 com uma equipe do município. O trabalho começou como mais um procedimento rotineiro envolvendo uma edificação antiga, mas rapidamente ganhou outra dimensão quando a equipe entrou no conjunto.
“A construtora tinha interesse em demolir, o que é até compreensível dentro da lógica do mercado imobiliário. Quando você tem uma área livre, consegue trabalhar o terreno da forma que quiser. Mas, quando chegamos lá, percebemos imediatamente que aquilo não era uma edificação comum”, afirmou.
Segundo Luiz Augusto, o que mais chamou atenção foi a preservação do claustro monástico, o tradicional pátio interno cercado por galerias, elemento muito presente na arquitetura religiosa europeia. Ele explica que o espaço carregava não apenas valor arquitetônico, mas uma simbologia histórica muito forte ligada à própria concepção de vida religiosa. “No parecer que desenvolvi, recomendei o tombamento definitivo do conjunto edificado e, sobretudo, a valorização da igreja, de parte do convento e principalmente do claustro, porque ele representa todo um conceito de mundo. O pátio interno monástico unificava os dois universos: a instituição religiosa e a vida doméstica das religiosas”, explicou.
A seguir, acompanhe o compilado de fotos registradas pela equipe de Luiz Augusto durante a vistoria realizada no complexo, compartilhadas com a redação do DIÁRIO DO RIO.
O arquiteto conta que o estado de deterioração do imóvel acabou permitindo descobertas ainda mais interessantes durante a vistoria. Com parte dos revestimentos já comprometidos pelo abandono, era possível enxergar técnicas construtivas originais da época. “As ruínas eram fascinantes. O revestimento tinha caído em vários pontos e aquilo permitia entender como a igreja foi construída. Fui praticamente mapeando a lógica construtiva do conjunto. Tem coisas ali que sequer possuem registros históricos detalhados. Eu saí de lá sem palavras”, relembrou.
Outro detalhe que chamou atenção da equipe técnica foi a origem das pedras utilizadas na construção da igreja. Segundo as pesquisas levantadas durante o parecer, o material foi retirado da própria região do Maciço da Tijuca.
Luiz afirma que o tombamento acabou preservando não apenas fachadas, mas uma série de elementos estruturais e simbólicos do antigo convento. Escadas, janelas, colunas, o pátio interno e até parte das ruínas entraram na proteção definitiva aprovada posteriormente pela prefeitura. “A grande cereja do bolo daquele retrofit era justamente a edificação histórica. Quando você tem uma construção dessas no terreno, o projeto precisa se adaptar a ela. Isso impõe restrições, claro, mas também obriga arquitetos e incorporadores a trabalharem de maneira mais criativa. Nem tudo pode ser feito, mas exatamente daí surgem projetos únicos”, disse.
O professor acredita que existe hoje um interesse crescente do público por empreendimentos que carregam memória e identidade arquitetônica. “As pessoas se interessam por lugares que têm história viva. E eu nem digo isso apenas como professor de arquitetura. Eu mesmo adoraria morar num lugar como aquele”, afirmou.
O que parecia obstáculo virou diferencial
A construtora Calçada contou ao DIÁRIO DO RIO que monitorava oportunidades imobiliárias na Tijuca naquele período, mas admite que o antigo convento foi um verdadeiro achado. Segundo a empresa, a primeira impressão ao visitar o terreno foi de encantamento. A construtora afirma que rapidamente percebeu o potencial do imóvel, embora inicialmente a ideia fosse seguir pelo caminho mais convencional da demolição integral. “Monitorávamos muito a Tijuca e acompanhávamos de perto as oportunidades da região, mas sem dúvida foi um achado. Quando analisamos aquele imóvel, nos apaixonamos”, afirmou João Paulo Matos, CEO da empresa.
O retrofit foi desenvolvido em parceria com a Montserrat, especializada em recuperação estrutural e patrimônio histórico. A adaptação exigiu uma série de soluções delicadas para transformar antigas áreas religiosas em residências modernas sem comprometer a estrutura original do convento. “Na verdade tivemos um excelente entendimento com a Secretaria de Urbanismo do Município, porque o desafio era grande e as adaptações muito delicadas. A avaliação estrutural requereu muita atenção e cuidados”, explicou a João.
No antigo convento surgiram 37 lofts residenciais distribuídos no segundo pavimento da construção histórica. Já nos fundos do terreno foram erguidas duas torres contemporâneas, batizadas de Firenze e Roma, com apartamentos maiores. O claustro central foi preservado e convertido em área de convivência do condomínio. A igreja passou por restauração e segue funcionando até hoje, aberta ao público e integrada ao cotidiano do empreendimento.
Uma das decisões mais simbólicas do projeto foi manter parte das ruínas aparentes sem restauro completo, justamente para preservar marcas do tempo e permitir que moradores e visitantes consigam visualizar partes da estrutura original da construção religiosa. “Retrofitar exige cautela e conhecimento, mas o resultado final é fantástico, porque conseguimos alinhar o antigo à modernidade”, afirmou.